quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Aborto

Aborto é a interrupção da gravidez pela morte do feto ou embrião, junto com os anexos ovulares durante qualquer momento da etapa que vai desde a fecundação (união do óvulo com o espermatozóide) até ao momento prévio do nascimento.

O aborto pode ser classificado em espontâneo ou provocado.


Aborto espontâneo

Ocorre quando uma gravidez que parecia estar desenvolvendo-se normalmente termina de maneira involuntária, ou seja, quando a morte é produto de acidente, alguma anomalia ou disfunção não prevista nem desejada pela mãe. O aborto espontâneo também pode ser chamado de aborto involuntário ou "falso parto".

O aborto espontâneo é quando a perda do embrião se dá antes da vigésima semana de gestação (5 meses), quando o feto não está em condições de sobreviver fora do útero materno. A maioria dos abortos espontâneos ocorrem durante o primeiro trimestre, diga-se, nas primeiras 12 semanas.

Calcula-se que 25% das gestações terminam em aborto espontâneo, sendo que 3/4 ocorrem nos três primeiros meses de gravidez.

Existem dois tipos de aborto espontâneo: o aborto iminente e o inevitável.

• O aborto iminente é uma ameaça de aborto. A mulher tem um leve sangramento seguido de dores nas costas e outras parecidas com as cólicas menstruais.

• O aborto inevitável é quando se tem a dilatação do útero para expulsão do conteúdo seguido de fortes dores e hemorragia. O aborto inevitável é dividido em três tipos: o incompleto que é quando ocorre depois da saída dos coágulos a saída restante do conteúdo e o aborto preso, que é quando o ovo morre, mas não é expelido.


Causas

A causa do aborto espontâneo no primeiro trimestre mais comum é uma anomalia cromossômica no feto. A maioria das anomalias cromossômicas são resultado de um óvulo ou um espermatozóide defeituosos. Essas anomalias são mais comuns em mulheres acima dos 35 anos, por isso, essas mulheres sofrem um maior risco de terem um aborto espontâneo quando engravidam, cerca de 70% dos casos

O aborto espontâneo durante o segundo trimestre deve-se à problemas externos como: incontinência do colo uterino, mal formação uterina, insuficiência de desenvolvimento uterino, fibroma, infecções do embrião e de seus anexos.

Um estudo realizado revelou que mulheres que fumam, consumem álcool ou drogas correm um grande risco e mulheres com infecções vaginais têm 5 vezes mais chances de terem um aborto espontâneo.


Consequências

Os possíveis sintomas de um aborto espontâneo incluem:

• Sangramento vaginal. A quantidade de sangue pode variar de algumas gotas à um fluxo abundante. O sangramento pode começar sem aviso e às vezes começa com uma tonalidade marrom.
• Dor de cólica.
• Perda de líquidos pela vagina, sem sangue e sem dor. Isto pode significar que as membranas se romperam.
• Se houver perda de materiais sólidos pela vagina, conserve para mostrar ao seu médico para que ele examine.
• Algumas mulheres sentem dor como a de um parto.

É possível que o aborto espontâneo ocorra sem sangramento nem dor.


Aborto provocado

Aborto provocado é a interrupção deliberada da gravidez; pela extração do feto da cavidade uterina de forma doméstica, química ou cirúrgica. Quando se pensa em aborto é esta forma que é conhecida popularmente.

Para provocar o aborto utiliza-se algumas técnicas:

• A sucção ou aspiração;

• A dilatação e curetagem;

• Drogas e plantas;

• Injeção de soluções salinas;

• Mediante Prostaglandinas;

• Pílula RU-486


Sucção ou aspiração

O aborto por sucção pode ser feito até a 12ª semana após o último período menstrual (amenorréia). Este aborto pode ser feito com anestesia local ou geral. Com a local a paciente toma uma injeção intramuscular de algum analgésico. Já na mesa de operação faz um exame para determinar o tamanho e a posição do útero. Se for anestesia geral, toma-se uma hora antes da operação uma injeção intramuscular de Thionembutal. Inicia então uma infusão intravenosa. O Thionembutal adormece o paciente e um anestésico geral por inalação como o Óxido de Nitroso é administrado através de uma máscara. A partir daí o procedimento é o mesmo da anestesia geral e local.

Insere-se no útero um tubo oco que tem uma ponta afiada. Uma forte sucção (28 vezes mais forte que a de um aspirador doméstico) despedaça o corpo do bebé que está se desenvolvendo, assim como a placenta e absorve "o produto da gravidez" (ou seja, o bebé), depositando-o depois num balde. O abortista introduz logo uma pinça para extrair o crânio, que costuma não sair pelo tubo de sucção. Algumas vezes as partes mais pequenas do corpo do bebé podem ser identificadas. Quase 95% dos abortos nos países desenvolvidos são realizados desta forma.


Dilatação e Curetagem

Na curetagem é feita a dilatação do colo do útero e com uma cureta (instrumento de aço semelhante a uma colher) é feita a raspagem suave do revestimento uterino do embrião, da placenta e das membranas que envolvem o embrião. A curetagem pode ser realizada durante o segundo e terceiro trimestre da gestação o bebé é já grande demais para ser extraído por sucção.

A curetagem é empregada para desmembrar o bebé, tirando-se logo em pedaços com ajuda do fórceps. Este método está se tornando o mais usual.

Este tipo de aborto é muito perigoso, por que pode ocorrer perfuramento da parede uterina, tendo sangramento abundante. Outro fator importante é que se pode tirar muito tecido, causando a esterilidade.


Drogas e Plantas

Existem muitas substâncias que quando tomadas causam o aborto. Algumas são tóxicos inorgânicos, como arsênio, antimônio, chumbo, cobre, ferro, fósforo e vários ácidos e sais.

As plantas são: absinto (losna, abuteia, alecrim, algodaro, arruba, cipómil - homens, esperradura e várias ervas amargas).

Todas estas substâncias tem de ser tomadas em grande quantidade para que ocorra o aborto. O risco de abortar é tão grande como o de morrer, ou quase.


Injeção de soluções salinas

É feito do 16ª à 24ª semana de gestação. O médico aplica anestesia local num ponto situado entre o umbigo e a vulva, no qual irá ultrapassar a parede do abdome, do útero e do âmnio ( bolsa d'água). Com uma longa seringa, injeta-se na bolsa d'água uma solução salina. O bebé ingere esta solução que lhe causará a morte por envenenamento, desidratação, hemorragia do cérebro e de outros órgãos. Após um prazo de 24 à 48 horas, por efeito de contrações do feto é expulso pela vagina, como num parto normal. O risco apresentado por este tipo de aborto é a aplicação errada da anestesia, e a solução ter sido injetada fora do âmnio, causando a morte instantânea.


Sufocamento

Este método de aborto é chamado de "parto parcial". Nesse caso, puxa-se o bebé pra fora deixando apenas a cabeça dentro, já que ela é grande demais. Daí introduz-se um tubo em sua nuca, que sugará a sua massa cerebral, levando-o à sua morte. Só então o bebé consegue ser totalmente retirado.


Esquartejamento

O feto é esquartejado ainda dentro da mãe. Deixando-o em pedaços. Retirada do liquido amniótico

Esta é uma das maneiras mais lentas de praticar o aborto: O abortista retira o liquido amniótico de dentro do útero e coloca uma substância contendo sal.


Mediante Prostaglandinas

Esta droga provoca um parto prematuro durante qualquer etapa da gravidez. É usado para levar a cabo o aborto à metade da gravidez e nas últimas etapas deste. Sua principal "complicação" é que o bebé às vezes sai vivo. Também pode causar graves danos à mãe. Recentemente as prostaglandinas foram usadas com a RU- 486 para aumentar a "eficácia" destas.


Pílula RU-486

Conhecida como "pílula do dia seguinte", é uma pílula abortiva empregada conjuntamente com uma prostaglandina, que é eficiente se for empregada entre a primeira e a terceira semana depois de faltar a primeira menstruação da mãe. Age matando de fome o diminuto bebé, privando do de um elemento vital, o hormônio progesterona. O aborto é produzido depois de vários dias de dolorosas contrações.

Estima-se que seja realizado anualmente no mundo mais de 40 milhões de abortos, a maioria em condições precárias, com sérios riscos para a saúde da mulher. O método clássico de aborto é o por curetagem uterina e o método moderno por aspiração uterina (método de Karman) só utilizável sem anestesia para gestações de menos de oito semanas de amenorréia (seis semanas de gravidez). Depois desse prazo, até doze semanas de amenorréia, a aspiração deve ser realizada sob anestesia e com um aspirador elétrico.


Consequências

As complicações do aborto, variam de acordo com o método empregado. Mas as principais conseqüências são:

• Laceração do colo uterino provocada pelo uso de dilatadores;
• Perfuração do Útero
• Perigo de lesão no intestino, na bexiga ou nas trompas;
• Hemorragias uterinas
• Inflamação do endométrio pós-aborto (infecção uterina secundária, decorrente do aborto).
• Evacuação incompleta da cavidade uterina. Necessidade de prolongar a sucção e de fazer uma curetagem imediata.
• Histerectomia (extração total do útero)


Países e o aborto

Veja abaixo, países que não permitem o aborto, exceto quando há risco para a vida da mãe (primeiro quadro), países que permitem o aborto, mas com restrições (segundo quadro) e países que permitem o aborto (terceiro quadro).




Mapa Abortivo

O mapa abaixo demonstra quais os paises que permitem ou não o aborto:



[ Leonardo Leite ]

1 comentário:

aralexancomjasabeu disse...

A PROPÓSITO DO REFERENDO DE DIA 11 DE FEVEREIRO E DA MORAL QUE TEIMA EM QUERER SER REFERENDADA

Faz dez anos que muitos de nós, não fomos votar, convencidos do consenso maioritário sobre esta questão. Não vamos tornar a contribuir para esta confusão. De um país contraditório, que toma como crime público a interrupção voluntária da Gravidez e que tem pudor em penalizar quem o comete!

O primeiro passo é ir votar para que o referendo expresse de forma clara o que o país pensa sobre a Matéria. É fundamental ir votar e em consciência. Vote-se sim ou vote-se não.


Todo o desvio para questões de índole moral é falacioso.

Em Portugal, todos os anos cerca de 20 000 mulheres recorrem ao aborto e à luz da lei vigente são criminosas.

O que está em causa neste referendo é tão-somente a descriminalização do acto de interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas. Não se vai referendar onde o povo português pensa que se inicia a vida. Ou o que é que se entende por vida. Ou se há vida num óvulo e num espermatozóide, e se eles devem ser entendidos como património do estado. Se a vida começa na fecundação, se durante a gestação ou no momento do nascimento. Ou se um embrião mal formado, ou fruto de uma violação é “menos vida” que um embrião bem formado. Ou se o consenso científico, que afirma não haver cérebro nem sensação até às 24 semanas de gestação, é importante para a questão. Nada disto está em causa neste referendo. O referendo pergunta apenas se se deve considerar crime a interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas de gestação.

Apesar do esforço destas questões, elas não entram neste referendo. O que agora é importante e urgente, porque fundamental à luz da lei, é discutir, opinar e resolver o drama do aborto-crime-clandestino, que se vive num país que se quer desenvolvido e que continua a não conseguir condições (educacionais e de segurança, de trabalho e de forma geral de qualidade de vida), discriminando uma parte importante da população mais exposta.

Venha nesse contexto toda a moral. Debelem-se todos os dramas sociais da humanidade. A fome, a miséria, a guerra. Emprenhe-se toda a humanidade nessa missão. E todas as Igrejas do Homem. Mas não se use o referendo para perpetuar a miséria escondida, fazendo de uma acção que pode ser clínica (acompanhamento, ou mesmo interrupção), uma questão metafísica, supostamente moralizante, afirmativamente dogmática. Na lei Portuguesa o Aborto é um crime público. A mulher que o comete intenta contra o Estado.


Se o Sim for expressão da vontade do País ninguém é obrigado a contrariar a sua convicção. Se pelo contrário Portugal votar Não à descriminalização, continuará tudo na mesma. O aborto clandestino permanecerá, alimentando a economia paralela e as fortunas de quem se faz pagar pelo risco que corre. Como de resto é característico de qualquer negócio escuro. As raparigas e mulheres com menos posses continuarão a recorrer a veterinários, curiosos ou mesmo à auto-mutilação como forma de tentar resolver por si o que a hipocrisia e o relaxe de todos teima em não querer decidir, escondendo este drama na clandestinidade. Fingindo que não existe. O Não, pura e simplesmente finge que o aborto não é problema, pois não dá saídas realistas para esta chaga social. Condena ao desacompanhamento, ao desamparo e por vezes a uma má opção muitas mulheres e jovens portuguesas.

O Sim permitirá um acompanhamento adequado às mulheres tentadas em interromper a gravidez. Algumas poderão inflectir a sua opção, ajudadas na ponderação da sua decisão. O Não fecha a porta a qualquer acompanhamento concreto, remetendo para o campo dos valores intangíveis de uns, as realidades incompreendidas de outros.


O Sim permitirá acabar com um grave problema de saúde pública. O acompanhamento especializado, em local apropriado evitará o peso desnecessário sobre o sistema de saúde de todas as mulheres que todos os anos entram nos hospitais ou falecem após tentativa de aborto.

O Sim permitirá o conhecimento real e mensurável das causas de aborto, pelo conhecimento das mulheres que a ele recorrem. Conhecer as causas concretas é fundamental para resolver as situações onde incide este flagelo.

Por último, o referendo para a descriminalização ou criminalização do aborto até às 10 semanas é também uma questão de Género. Se o Não passar incide-se na discriminação continuada da mulher. Onde se encontra na lei a responsabilidade do homem que fecundou? De que forma é chamado à responsabilidade? Até onde vai a responsabilidade de todos nós, que fazemos este País, neste acto que ainda é crime público e que, por consequência, acarreta punição?

Ultimamente tem sido consensual, entre os convictos do Sim e os convictos do Não, que a mulher não deve ser punida por ter interrompido a Gravidez durante as primeiras 10 semanas. Mais confusão! Mas então porque não votam todos no SIM em conformidade com essa opinião? Ou será possível decretar um crime e não legislar o castigo correspondente? Não é tão só essa a questão que vai a referendo? Não se alcança a dúvida. A não ser que radique apenas numa convicção profunda, abstracta, feita em Dogma e por isso de difícil argumentação, afirmando uma qualquer razão, que alguns homens dizem, erradamente, de Deus.




Aos cristãos e católicos.

Apesar de não ser a igreja que vai a referendo, a sua voz é importante porque é ouvida. A igreja é um factor importante na sociedade portuguesa.

Sou cristão e posso escolher. Mas não tenho o direito de julgar nem condenar porque não sou omnisciente. Nem concedo à hierarquia da igreja católica o direito de se substituir a Deus. Até porque o que vai a referendo, torno, não é a Igreja católica nem o seu papel Social. Independentemente dos Dogmas eclesiásticos sobre a vida, ou propaganda sobre o altar. Jesus não era grande frequentador dos Templos. Correu mesmo com os vendilhões que se apropriavam do espaço sagrado. Não deixou que apedrejassem Maria Madalena. Hoje Santa. A lei canónica a que alguns padres se referem foi feita pelos homens. O Deus em que muitos acreditam quer a libertação dos homens e a construção de um mundo melhor. Não quer a dor a miséria, o castigo a fome e a guerra. Quer a ética sentida e consciente e não a moral feita de Dogma, de culpa e obrigação. Empenhe-se a igreja activamente nesta árdua tarefa de melhorar o mundo de amanhã, feito hoje de tanta miséria e fome, e não na substituição de Deus, julgando e condenando em vida ao “ Apedrejamento” legal, tantas mulheres.

Será consensual entre todos os católicos que fazem a Igreja a posição da Igreja católica sobre a interrupção voluntária da gravidez quando fruto de violação? Ou quando põe em causa a vida da mãe? Ou quando por desígnio que escapa, o feto é malformado? A ela, mãe, e à sua família cabe em primeira instância a tomada de decisão. Se a mãe, de forma consciente, quiser levar por diante uma gravidez que ponha em causa a sua vida, há que respeitar a sua opção. Se quiser ter o filho sabendo-o deficiente, tomando-o como responsabilidade suprema, respeite-se e admire-se. Afinal o que seria deste mundo sem todos os deficientes, mentais ou físicos por nascença? Mas até aqui a decisão, fundamentada em valores, fé ou outros desígnios compete à família e à mulher, centro desta decisão. Nada disto vai a referendo. Contudo, se o Sim representar a maioria da população, todas estas situações estarão consignadas.

Neste referendo não está em causa a perspectiva católica sobre a vida lato senso. Está em causa a descriminalização da interrupção da gravidez até às 10 semanas, por decisão voluntária da mãe, após período de reflexão.

O Sim abre todas as possibilidades. Não obriga ninguém a abortar. Pelo contrário compromete-nos a todos neste flagelo e ao Estado, que somos todos, na procura real de soluções. Não é por ser descriminalizado até às 10 semanas que o número de abortos aumentará. Poderá porventura aumentar a face visível deste flagelo. E aí, somos todos chamados a não fazer como Pilatos. Tenhamos todos, homens e mulheres, a coragem de nos comprometer no próximo domingo.